Banco fica com parcela maior do "spread"

Sandra Balbi (em 27/02/2006 - Folha de S.Paulo)

Os cinco maiores bancos do país que já divulgaram os balanços de 2005, exibindo lucros recordes, aumentaram seu "spread" nos últimos cinco anos, segundo estudo realizado pelo Inepad (Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração) com exclusividade para a Folha.
Bradesco, Itaú, Unibanco, Banespa e o estatal Banco do Brasil obtiveram "spread" total de 12,2% no ano passado, enquanto em 2001 essa taxa era de 11%. Ao mesmo tempo, cresceu a parcela do lucro na composição do "spread" nesse período. Em 2001, 15,6% do "spread" total eram destinados aos resultados (lucros); no ano passado, essa mesma parcela chegou a 21,9%.

Em 2005, o Itaú foi o banco com o maior "spread" total, segundo o Inepad, seguido pelo Banespa, o Unibanco e o Bradesco (veja quadro ao lado). O menor "spread" verificado foi o do Banco do Brasil, que opera com crédito agrícola a taxas de juro mais baixas.
"Spread", na definição corrente no mercado, é a diferença entre a taxa média de juros que os bancos pagam ao captar recursos e aquela que recebem ao aplicá-los -seja emprestando ao governo ou ao setor privado (pessoas físicas e jurídicas). No entanto, o Inepad considera nos cálculos do "spread" total também as taxas de serviços cobradas pelas instituições financeiras.

"No caso do Brasil, como há mais demanda por crédito do que oferta, os bancos condicionam a concessão de empréstimos à aquisição de outros produtos como seguros, títulos de capitalização ou planos de previdência. Assim, na taxa de juro paga pelo cliente está embutida também a prestação desses produtos. Portanto o "spread" deve incluir também as receitas de serviços dos bancos", afirma Alberto Borges Matias, presidente do Inepad e professor da Faculdade de Economia da USP de Ribeirão Preto.

O instituto reconhece que adota um conceito polêmico de "spread". Por isso, também calculou o chamado "spread" financeiro dessas instituições nos últimos cincos anos. Essa taxa é a diferença entre o juro pago na captação e o recebido na aplicação. Em 2001, a taxa média do "spread" financeiro dos cinco maiores bancos era de 7,5% e, no ano passado, foi de 8,4%. Todos os cálculos foram feitos com base nos balanços das instituições financeiras.

Formação do "spread"

Entram na formação do "spread" bancário, a taxa de inadimplência, as despesas estruturais -pessoal e administrativas-, os gastos com impostos e os resultados do banco, segundo informa o Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração.

Ao analisar esses quatro componentes, o Inepad concluiu que o crescimento do "spread" total dos bancos ocorreu para sustentar os resultados das instituições financeiras e o aumento dos gastos com impostos, segundo informa Edson Carminatti, analista financeiro do instituto e responsável pelo levantamento. "Os bancos conseguiram aumentar o "spread" reduzindo os custos de captação, pois estão conseguindo levantar recursos a taxas mais baixas no mercado externo e aplicando aqui a taxas altas", afirma o analista. Em 2001, as instituições financeiras captavam a uma taxa média de juros de 9% ao ano e, no ano passado, a 6,7%.

Nesses cálculos estão incluídos desde a captação mais barata -que é a da caderneta de poupança e a parcela do saldo das contas correntes que fica no banco sem remuneração- até as taxas dos CDBs (Certificados de Depósitos Bancários). "Os resultados dos bancos é um dos formadores do "spread" que mais cresceu. Só perde para o crescimento dos impostos", observa Carminatti. Em 2001, eles representavam 15,6% dos "spread" total e pularam para 21,9% no ano passado. Já a parcela do "spread" total que ia para impostos subiu de 8,1% para 16,5% no mesmo período. "Isso é preocupante, pois o peso dos impostos cresceu muito", afirma Carminatti.

Despesas

A maior parte da formação do "spread" bancário, entretanto, ainda é decorrente das despesas estruturais -como a de pessoal e as administrativas. As despesas responderam por 45,8% do "spread" total em 2005 -um forte recuo ante os 61,8% que representavam em 2001.
Segundo Carminatti, os bancos ganharam eficiência conseguindo operar melhor com a mesma estrutura. Para Borges Matias, a redução das despesas é conseqüência do aumento da escala na operação bancária. "Os bancos aumentaram suas carteiras de crédito e sua base de clientes, enxugaram a estrutura e hoje conseguem ter lucros maiores e despesas menores", afirma o presidente do Inepad.

Já a inadimplência -à qual sempre os bancos atribuem a responsabilidade pelos juros e "spreads" elevados- cresceu pouco no período analisado. Em 2001, ela representava 14,5% do "spread" e, no ano passado, chegou a 15,8%. "Como as operações de crédito cresceram muito, era de se esperar um aumento da inadimplência. Mas não foi ela que fez o "spread" crescer", diz Carminatti.